Um retorno às aulas 4.0 – Atualidade
Quotidiano de um pai em morada. Dia 28
O meu processador continua a maltratar na mesma tecla, 24 horas depois da decisão do executivo de António Costa sobre as escolas do 1º ao 9º ano. Falo, obviamente, da Escola Virtual até junho.
Ora, nesse primeiro passo na direção de uma mudança estratégica de paradigma educativo entram laptops, desktops, tablets, downloads e atualizações, câmaras HD, muito RAM, memórias, processadores e placas gráficas. Tudo para que consigamos aquiescer às plataformas que nos pedem para entrar.
Acrescento um pormenor, de índole privada: no meu caso, a essa lista de condições, somei aquisições de hardware e software para dotar tecnologicamente uma sala de lição de quatro filhos.
Tive que ir às compras. Fisicamente. De máscara. A pausa pascal transformou-se num retorno às aulas (4.0) de setembro. Com o peso que tal ida acarreta.
Mas só que em vez de borrachas, lápis, canetas, réguas, cadernos pautados, quadriculados, compassos, transferidores e dossiês foram tablets, teclados-capote, licenças de Office 365 e routers que ligeiro o wif-fi a cada um dos cantos da lar.
Investimento (muito) feito para que nenhum deles fique de fora do entrada à autoestrada da Sociedade da Informação e do Conhecimento que terá porquê sala de lição o Zoom e o Teams. Estão todos equipados. Tecnologia não lhes falta. E deixam de ter desculpas de “não consigo aquiescer”. Zero disso. Cá em moradia, tropeçamos em computadores e gigabytes por todo o lado.
Antes mesmo de ir, no entanto, ainda tive o impulso de ir ao meu baú informático. Desembrulhei um computador antes do bug 2000. Um tablet, idoso, dos primeiros, com a câmara na secção de detrás. Nenhum deles serviu. Tentei. Desesperei. E recordei o Sinclair ZX Spectrum e dos jogos do pac-man e Chuckie Egg. E lembrei-me da outra telescola, a preto e branco.
Com tantos G’s hoje em dia, e nos passos que vamos dar, embora empurrados pelas circunstâncias, será que para o ano, vou olhar para os lápis e borrachas e questionar-me, para que é que isto serve? Espero que não. Espero que os meus filhos, a sua geração tecnologicamente evoluídos, e altamente capazes e à fundura deste duelo que está à sua espera, continuem com as mãos sujas e folhas borradas de tanto a borracha extinguir. Eu, pelo menos, tratarei disso. Nos dois meses que me esperam.