Quando o general Atatürk liderou a revolução turca que culminou com o fim do império Otomano na década de 20, ele se deparou com uma tarefa de dificuldade monumental: como quebrar os laços históricos de um povo com um regime que já durava séculos e que colecionava feitos como, por exemplo, a conquista da simbólica Constantinopla?
A estratégia utilizada foi altamente prática: mudar tudo. Afinal, ao se quebrar o referencial, quebra-se também, em um curto espaço de tempo, a própria noção de que há alguma outra realidade para a qual se possa caminhar. Atatürk mudou a capital de Istanbul para Ancara, no interior do país; fez da educação algo gratuito e obrigatório; transformou o país de sultanato muçulmano para república secular; e trocou o alfabeto árabe por um baseado no latino, sendo esse talvez o mais revolucionário dos feitos sob a ótica religiosa dado o simbolismo da escrita muçulmana.
Décadas se passaram e, hoje, a Turquia tem um dos regimes mais estáveis de todo o mundo árabe do qual fazia parte, tendo apagado definitivamente o risco de uma contra revolução ressuscitar o antigo império.
Ruptura plena com o IPhone
Quando a Apple lançou o IPhone, ela praticamente reinventou o mercado de smartphones, levando uma experiência de navegação tão grande que empresas como a Palm, por exemplo, foram reduzidas a pó.
Com base nessa experiência, ela não apenas dominou um novo mercado, como também fez com que o público consumidor entendesse o “modelo Apple de usabilidade”.
Para facilitar, a empresa de Jobs criou uma espécie de “ponte conceitual” entre ela e o mundo do PC, diminuindo a curva de aprendizado, aproveitando o seu “momentum” e gerando uma onda de migração de plataformas responsável por explosões de vendas em Macs e dando margem a novas invenções como o IPad.
Enquanto isso, a Microsoft se debatia, agonizante, em torno de estratégias capazes de reverter essa “onda migratória” que minava consistentemente a sua liderança. Experiências as mais diversas apareceram nos últimos anos, indo de versões constrangedores de smartphones a sistemas operacionais bugados, somando tiros de baixo calibre para tantos lados que o império parecia ficar sem munição no mesmo tempo em que seus inimigos se multiplicavam.
O império contra ataca
Mas dinheiro é sempre uma arma mais poderosa que o que se costuma imaginar e, eventualmente, a Microsoft encontrou o seu rumo: o Windows 8.
O que...
há de diferente nele? Tudo: do produto ao momento.
Em pleno 2013, a arquirrival Apple está enfraquecida com a morte de seu fundador, com problemas graves em seu processo de inovação e uma sangria de clientes justamente no seu ponto mais forte: o IPhone, que perde diariamente adeptos para o mundo Android.
E, considerando que a Apple está concentrando esforços em si mesma, buscando uma espécie de “reinvenção salvadora”, o momento era ideal para um ataque bem planejado – como o Windows 8.
A Microsoft seguiu o mesmo exemplo de Atatürk: mudou absolutamente tudo. Quem já usou o Windows 8 sabe que sua interface é diferente ao ponto de deixar o usuário mais fluente se sentindo velhinho de 80 anos mexendo em um computador pela primeira vez. E isso é ruim? Nesse momento, de forma alguma – mesmo porque o sistema operacional tem uma qualidade inegavelmente superior à de seus antecessores.
Com uma curva de aprendizado rápida, o usuário não apenas se acostuma ao Windows 8: ele se entrega a ele. Em poucas semanas, ele já nem lembra bem como navegava em outros Windows, estando já ambientado a uma nova plataforma. E, como havia muitos pontos em comum entre os Windows antigos e o Mac OS, essa ruptura dificulta imensamente que novos usuários façam a migração.
Ou seja: para usuários de outras versões de Windows, uma escolha estava sendo apresentada: ou eles migravam de vez para o mundo Mac ou mergulhavam em uma nova versão de Windows, marca que já estavam habituados. A “ponte conceitual” que havia permitido a migração para a Apple anos atrás estava, finalmente, sendo quebrada.
Qual o resultado?
Lançado em agosto de 2012, o Windows 8 fechou o seu primeiro ano com 7,41% de market share (incluindo aí um salto de incríveis 2% nos últimos 2 meses). Ele perde apenas para os seus antecessores Windows 7 (45,63%) e Windows XP (33,66%), indicando amplo espaço de crescimento. O OS X, da Apple, já está atrás, com 7,26%.
A leitura desse cenário é clara: quando se tem público cativo e confiança em um modelo novo (seja de produto, serviço ou estrutura política), raras estratégias são mais efetivas do que a de ruptura plena. Afinal, é justamente esse modelo que quebra todas as possíveis pontes com demais realidades, forçando uma curva de adoção que, se bem gerida, barra a entrada de competidores de forma altamente eficaz.
Fonte:Planos & Ideias