O conhecimento localizado em um mundo globalizado

FOTO: Jon Gilbert Leavitt

Por Alfredo Goldman*

Com a evolução da tecnologia, temos enfrentado um efeito enorme relativo à subtracção no tempo de informação. No século pretérito, dependíamos do envio de cartas pelo correio para uma informação distante; um pouco que, conforme a origem e o fado, poderia levar mais de um mês. Hoje, quando acessamos uma página na web, literalmente, do outro lado do mundo, queremos uma resposta rápida e, se esperarmos mais do que alguns segundos, já haverá alguma frustação envolvida.

Da mesma forma, diversas particularidades que existiam somente localizadas em certas comunidades também foram se espalhando rapidamente por diversas regiões do mundo. Por exemplo, agora que estou morando nos Estados Unidos, tenho aproximação fácil a Açaí e Guaraná. Mas é evidente que ainda existem vários aspectos regionais importantes, porquê a enorme quantidade de frutas frescas no Brasil, os diversos tipos de esportes que são apreciados nos Estados Unidos, passando por todas as diferentes línguas e culturas da Europa.

Lembrei de uma conversa com um camarada, quando pensávamos nos aspectos positivos da globalização. Por exemplo, ao se chegar a quase qualquer cidade de porte médio do mundo, é provável procurar pelo restaurante com o símbolo M em vermelho e amarelo de forma a encontrar um Big Mac. Logo, dá para consumir em Kuala Lumpur sem falar nenhuma termo da língua lugar.

Mas o que eu não esperava era encontrar particularidades em um lugar tão popular e internacional porquê a Wikipédia, onde há características regionais fortes. No prelúdios do ano, assisti a uma palestra do pesquisador Darren Gergle na qual ele apresentou um trabalho acadêmico a reverência. No vídeo, ele deixa evidente que há uma pluralidade global, isso é, o que geralmente se encontra em outras línguas na Wikipédia não é somente uma tradução do inglês, ou vice versa. É evidente que o inglês predomina com mais de 4 milhões de artigos, mas há muito espaço para manifestações regionais.

Entre os resultados mais interessantes que ele mostrou, cito dois: primeiro, a maior troço dos conceitos aparece em uma ou no sumo em poucas linguagens. Isso é, cada língua tem os seus próprios assuntos, sem tradução direta, e somente 1% de todo o texto está presente em todas as línguas. Aliás, não há línguas que contém outras: há intersecções, mas sempre há particularidades. E, segundo, mesmo para os conceitos comuns, porquê por exemplo chocolate, há grandes diferenças nas descrições regionais. Logo, ao invés de um consenso global, há uma enorme multiplicidade.

Quem diria que um recurso tão universal e tão útil quanto a Wikipédia poderia ser tão específico e tão devotado aos interesses de cada grupo de pessoas? Mas, justamente, suas características emergem das culturas que a constroem. Porquê o Software Livre!

* Alfredo Goldman é Professor de Ciência da Computação no IME/USP e diretor do CCSL-IME/USP

Com informações de (Nascente):Código Aberto