Je suis informations
“JE SUIS CHARLIE”
O slogan adotado e popularizado por jornalistas e outros defensores da liberdade de expressão, após o massacre de 7 de janeiro de 2015 na sede do semanário parisiense “Charlie Hebdo”, mostra que a informação quer ser livre, igualitária e fraterna (“liberté, egalité, fraternité”, o lema que sobreviveu à revolução francesa).
Como no verso do poeta americano Douglas Blazek: “O homem é a informação, depois de hidrogênio”. Por isso, cada um que grita “Je suis Charlie”, inevitavelmente, também grita “Je suis informations” (Eu sou informação). Defender a liberdade (a fraternidade e a igualdade) da informação é também defender a si mesmo.
UFRJ VERSUS HACKERS
Os sites do curso de História da UFRJ e o da Revista Ítaca, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (Ifcs) foram invadidos por hackers no sábado, 17 de janeiro. Uma mensagem escrita em inglês deplorava um suposto “desrespeito a Maomé”. Após os ataques, assinados pelo grupo “BD Grey Hat Hackers”, de Bangladesh, os sites foram retirados do ar pela universidade, até que houvesse “reforço na segurança”. Nota: No Domingo (18/01) à noite, os sites permaneciam fora do ar; a instituição calada e aparentemente resignada.
BOKO HARAM
Desconheço os motivos que levariam “hackers mulçumanos” a invadirem os sites da UFRJ e, menos ainda, porque concluiriam que a universidade “desrespeitou o profeta Maomé”. Passo. Também seria demasiado longo tentarmos analisar porque o atentado (deplorável) ao Charlie Hebdo e a reação da opinião pública francesa dominaram as capas de jornais e revistas do mundo inteiro, quando uma outra ofensiva ainda maior, a da seita islâmica Boko Haram no nordeste da Nigéria, pode somar 2.000 mortos, e incluiu ações inimagináveis como o envio a um mercado de uma menina de 10 anos com explosivos atados ao corpo, provocando sua morte e a de outras 19 pessoas.
INFOBESIDADE = INFOXICAÇÃO
Esqueça as drogas, as bebidas e o sexo. Um novo vício no Ocidente nos tomou com seu poder sedutor e avassalador. A sobrecarga de informação (infoxicação ou infobesidade) se refere à dificuldade que uma pessoa pode ter na compreensão de problemas e na tomada de decisões, por causa do excesso de informações. Grande parte da nossa dependência de informações é uma causalidade dessa palavra onipresente, “progresso”, definida essencialmente como “o movimento em direção a um lugar melhor”. Será que temos debatido suficientemente o quanto os avanços tecnológicos estão sendo ou não prejudiciais para nós?
A INFORMAÇÃO QUER SER LIVRE
Uma fatia substancial da população (geek) sempre irá associar Stephen Levy ao seu primeiro livro, “Hackers“, publicado em Novembro de 1984. Foi, afinal, o livro que estabeleceu um meme que ainda lateja no pulso das discussões, seja nos chats anônimos do IRC, nos painéis sobre o futuro da música, ou nas discussões a respeito de autopublicação (entre outros): “A informação quer ser livre”. O mais interessante é que essa frase, considerada a “frase mais famosa do livro”, não foi inventada por Levy, aliás, sequer está no livro.
REGULAMENTAÇÃO (ECONÔMICA) DA MÍDIA
O novo ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, confirmou há poucas semanas, que o governo brasileiro vai apresentar proposta de regulamentação econômica da mídia. O ministro negou que o governo tomará como base a proposta de regulamentação da mídia em discussão no PT, que inclui a regulamentação de conteúdo: “Nós vamos ouvir todas as propostas que forem apresentadas. Essa é uma delas. Se for bem conduzida, pode ser bem sucedida…”
UMA FRASE DE CLAUDE SHANNON
Frases anônimas, frases assinadas, frases sobrecarregadas. O que me faz lembrar de uma outra frase, essa do matemático americano Claude Shannon, que diz mais ou menos assim (e aqui, sua reprodução, certamente, incorpora um risco): “o problema fundamental da comunicação é o de reproduzir em um ponto ou exatamente ou aproximadamente uma mensagem selecionada em outro ponto. Frequentemente as mensagens têm significado”.
Como o transistor (o segundo desenvolvimento mais significante de 1948, porque era apenas hardware), uma outra invenção, ainda mais profunda e fundamental, aparecida em uma monografia de aproximadamente 80 páginas, intitulada “A Mathematical Theory of Communication”, assinada por um jovem de 32 anos, também envolveu um neologismo: a palavra “bit” foi criada por Claude Shannon para representar uma unidade de medida de informação. Mas, qual será a medida de uma informação?
MUSEUS DA JUVENTUDE
As agências internacionais noticiam no domingo (18,1), que o Papa Francisco, em visita a Manila, capital das Filipinas, disse que o cinismo e a hipocrisia no mundo de hoje podem estar relacionada com a abundância de informações na World Wide Web e exortou os jovens a não se tornarem “museus da juventude”, vivendo perigosamente em um mundo cheio de informações, mas sem nenhum senso de compaixão e amor:
“[O mundo da informação] é tão ruim assim? Não necessariamente. É bom e pode ajudar, mas há um perigo real em vivermos de uma forma voltada a acumular informações. Nós temos tanta informação, mas não sabemos o que fazer com essa informação”, disse Francisco, que também pediu aos jovens para usarem (em harmonia) “as três línguas (da mente, do coração, das suas mãos) para sentir, pensar e fazer”.
ALFABETO DE 6 GIGABITS
Nós podemos ver agora que a informação é o que faz o nosso mundo se movimentar: o seu sangue, combustível, principio vital. Penetra as ciências de cima para baixo, transformando todas as ramificações do conhecimento. O próprio DNA é um alfabeto e um código, 6 bilhões de bits que formam um ser humano. “O que está no coração de todos os seres vivos”, declarou Richard Dawkins, o teórico da evolução, “é a informação, palavras, instruções”.
LITERATURA CLÁSSICA
Como editor e autor, busco lidar com a inevitável sobrecarga de informação (cada um de nós terá a sua) estabelecendo um compromisso real com a literatura clássica (literatura = informação, palavras, instruções, isso lhe soa familiar?).
Às vezes tão desafiadores, os romances clássicos são gratificantes e ricos em descrições de personagens e processos de pensamento de seus heróis e vilões. Nós, muitas vezes, temos dificuldade em articular em palavras exatas o que um clássico nos tem ensinado.
No entanto, não poucas vezes, conseguimos sentir a importância do livro, conseguimos experimentar a impressão que ele nos causou. Os bons livros (os clássicos principalmente) são combustíveis que “queimam lentamente”, o que os fazem ficar conosco por mais tempo. Estão sempre a nos lembrar que devemos olhar para além da superfície, pensar mais profundamente.
A literatura, em si, não é a “bala de prata” que vence todos os desafios que enfrentamos em relação à informação. Mas é um bom lugar para começarmos.
Um bom romance pode melhorar nossas habilidades de escrita, informar, conceder uma visão mais humana e reforçar nossa articulação. À medida que enxergamos e ouvimos cada vez menos uns aos outros, um clássico consagrado pelo tempo pode ajudar a nos conectarmos, a preencher essa lacuna (sobrecarregada de informações) entre nós.
Fonte:Plural