por Filipa Moreira da Cruz
Quando o meu fruto tinha nove anos a professora pediu para responder à pergunta da praxe: o que é que queres ser quando fores grande? O meu fruto escreveu «não sei o que vou ser quando for grande porque a minha profissão ainda não existe e penso que não terei exclusivamente uma profissão, mas várias». Obviamente, a professora não ficou satisfeita com o TPC. Mal sabe a docente que o meu fruto não tinha escrito nenhum disparate. Certas profissões estão em vias de extinção e outras (inimagináveis até há pouco tempo) crescem exponencialmente.
A partir do momento em que entramos na escola somos formatados, temos que entrar no molde, preencher uma lar predefinida. E isto ocorre ao longo de toda a nossa vida. Ser dissemelhante paga-se custoso! Ainda hoje, numa entrevista de trabalho, nos perguntam «o que pensa fazer daqui a 5 anos?» esquecendo-se que, bastou um vírus para dar uma reviravolta às nossas rotinas. Por muitos planos que façamos, a médio ou longo prazo, devemos estar preparados para o efeito surpresa.
A era do dedo revolucionou as nossas vidas, mas ainda não somos capazes de escoltar o vertiginoso ritmo das novas tecnologias. Os seres humanos têm pavor da mudança, alguns sentem-se perdidos quando saem da zona de conforto. Ainda não percebemos que o horizonte é agora!
A pandemia impôs-nos uma novidade forma de trabalhar, as prioridades foram alteradas. O teletrabalho passou a estar na ordem do dia. As reuniões à intervalo, as vídeo conferências e a autonomia são as forças da novidade era pós-covid. Para os países anglo saxónicos, da Europa do Setentrião e alguns asiáticos a transição fez-se...
quase naturalmente porque a novidade veras já fazia secção da sua cultura laboral. No entanto, para a maioria, a adaptação foi brusca e dolorosa.
De contrato com dados da OCDE e do Banco Mundial, nos dias de hoje, uma em cada duas pessoas não trabalha. Podemos descontar que metade da população vive graças ao que a outra metade produz. Se quisermos ir mais longe verificamos que os seres humanos já não vivem para trabalhar e o trabalho deixou de ser a única manancial de rendimento. Nos países mais desenvolvidos, os indivíduos passam cada vez menos tempo numa atividade laboral porque têm coisas (máquinas) ou alguém (os mais pobres) a trabalhar para eles.
Durante muito tempo, a base da sociedade era o trabalho e os que não exerciam uma atividade profissional eram socialmente excluídos. Mas isso era dantes! Atualmente, no mundo ocidental, a força tecnológica gera 90% da riqueza, o que significa que o trabalho humano não corresponde a mais de 10%. Segundo alguns economistas, cada quidam do Oeste tem 500 escravos energéticos.
Até que ponto os robôs e a lucidez sintético controlam o mundo? Cabe ao Varão impor limites para não ser ultrapassado pelas máquinas. A tecnologia deve ser utilizada para preencher as necessidades da sociedade, mas não devemos desabar na cilada de depender exclusivamente dela. O ser humano deve reinventar-se incessantemente. Talvez o meu fruto tenha razão e daqui a 10 ou 15 anos, exerça uma profissão que ainda não existe. Ou logo irá resgatar um idoso ofício do perdido século XX. Um revinda ao pretérito com uma pincelada do mundo do horizonte. Tudo é provável!