Entre o Santo e o Demo

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Em 10 de abril é comemorado o dia de São Terêncio e da Engenharia. Hoje cada dia santo é dia de um pouco e engenharia tem seus atrativos, ao menos para mim. Mesmo quando, um pouco constrangido, li com colegas o juramento: “… não me deixarei cegar pelo clarão excessivo da tecnologia, de forma a não me olvidar de que trabalho para o muito do varão…” Excetuando o juramento dos médicos, de origem antiga e ilustre, os demais são instantes embaraçosos nas formaturas.

Não posso ser indiciado de ver o “fulgor excessivo”. Aliás, sou até refratário em alguns casos. Essa falta de exaltação pode obrigação-se a um notório desencantamento com os novos tempos, mas, também, por tentar sopesar prós e contras. Por exemplo, a velha forma de pegar um táxi no ponto, ou bracejar para um deles na rua, não é tão confortável porquê usar um aplicativo e muito menos charmosa. Mas além do “bom dia” e do endereço de fado, não preciso manifestar mais zero ao taxista. Não passo meu telefone e endereço, nome completo, dados do cartão de crédito.

Por outro lado, acabamos de ler que, em seu relatório de transparência, o Uber repassou dados de 12 milhões de usuários aos órgãos de controle setentrião-americanos. Coisas que, via aplicativo, ficarão armazenadas por tempo interminável, em lugares misteriosos e à disposição de desconhecidos. Essa pequena “barganha mefistofélica”, de lucrar vantagens e atrativos gratuito, levará em troca troço de minha espírito privada. Sei que posso estar pregando bobagens e que o defeito é meu, porém turrão porquê sou, prefiro esperar um táxi livre passar, mesmo...

tendo um telefone no bolso e a possibilidade dos mágicos aplicativos. E sou dos que leem as letras miúdas dos contratos de adesão e tento instituir o que eles querem de mim, em troca da felicidade que oferecem. Creiam-me, às vezes não vale a pena.

Remunerar um pedágio involuntariamente repassa ao sistema nosso trajeto e horários. O celular ligado permite saber a posição e, com aplicativos instalados, os deslocamentos são conhecidos. Recebemos propaganda de hotéis e de restaurantes nas proximidades. Passagens aéreas compradas farão com que sejamos avisados que estamos atrasados para embarque.

Há dois meses pensei em comprar um prosaico alicate pela internet e ainda hoje sou assombrado por figuras de alicates que aparecem nas telas de minha navegação, porquê se minha vida se resumisse na procura do “alicate ideal”. Evidente que há muito conforto nisso tudo, mas a quantidade de dados coletada e devidamente digerida por ferramentas de “Big Data” é o lado obscuro do pacto que assinamos. E também não aceito o argumento de que “assinei, mas não li”. Parece um pedido de tutela. Somos crescidos e devemos ser responsáveis pelas nossas decisões, mesmo numa era em que há uma crescente tentação de permanecer na meninice e na superficialidade. De alguma forma, a maturidade hoje lentidão a chegar para muitos, quando chega.

Sou engenheiro e prefiro, antes, ler a regra do jogo tecnológico. Fausto, que tinha lido muito o contrato que assinara com o Demo, conseguiu livrar-se no último momento. Sorte dele!

É ENGENHEIRO ELETRICISTA; ESCREVE QUINZENALMENTE

Com informações de (Manadeira):Demi Getschko