Sátira Terremoto é um entretenimento que orla o sadismo


Quando A Vaga foi lançado em 2015, pouco se comentava sobre o cinema norueguês no mundo mainstream. O filme de Roar Uthaug, que viria a encaminhar Tomb Raider: A Origem (2018), colocou a Noruega no planta do cinema mercantil. Com orçamento de US$ 6 milhões, o tsunami no fiorde de Geiranger mais do que dobrou o seu dispêndio, chegando perto dos US$ 13 milhões nas bilheterias. Pode ser pouco se comparado a um blockbuster de Hollywood, mas é um montante considerável em se tratando de um país escandinavo.

As cifras, por outro lado, poderiam manifestar muito menos se esse filme-catástrofe seguisse as regras americanas para entretenimentos menos compromissados com a veras, porquê, por exemplo, Terremoto: A Lacuna de San Andreas (de Brad Peyton, 2015). O que A Vaga faz é humanizar a experiência, retirar o foco do sinistro e do heroísmo de um Dwayne Johnson e imergir na experiência individual dos seus personagens. O desespero não é o gigantismo da catástrofe, não é o susto de ser engolido e morto pela chuva, é a sensação de perder um ente querido, é o sofrimento de ver alguém ter a vida suprimida.

Desvelo! A sátira pode sofrear spoilers!

Michael Bay com Woody Allen

Terremoto, que já nos primeiros segundos se assume porquê uma sequência, secção de uma premissa semelhante a do seu predecessor: não ser somente uma ficção, mas impor-se porquê uma previsão. O sentimento premonitório do protagonista (o geólogo Kristian Eikjord – interpretado por Kristoffer Joner), dessa forma, funde-se ao imaginário porquê um aviso desde o princípio. Esse tom de ameaço real acaba por distanciar o filme de uma obra porquê O Impossível (de J.A. Bayona, 2012), que comenta alguma coisa pretérito, e, por si só, cede um temor real. Nesse sentido, é imaginável que os residentes da capital norueguesa Oslo assistam ao filme com uma afetação legítima de pânico.

“O sentimento premonitório do protagonista funde-se ao imaginário porquê um aviso desde o princípio.” (Imagem: Califórnia Filmes)

Ainda assim, enquanto o temor lugar é potencializado pelo fator premonitório – que é reforçado cruelmente (ou com preocupação) em letreiros no início dos créditos finais –, o diretor John Andreas Andersen (substituto de Uthaug) demonstra uma entrega muito maior à comercialização. Existe uma tentativa dos roteiristas John Kåre Raake e Harald Rosenløw-Eeg (a mesma dupla que escreveu A Vaga) de reavivar as emoções causadas pelo precursor, mas Andersen parece não conseguir transcrever questões mais íntimas. Em excesso, é porquê dar para Michael Bay (de Esquadrão 6) um roteiro de Woody Allen (de Um Dia de Chuva em Novidade York). Sem qualquer julgamento qualitativo, a questão é que, a uma primeira vista, parece incompatível.

Em razão disso, a primeira metade de Terremoto é extensa a ponto de cansar. Toda a intromissão na vida do protagonista parece sem ritmo, porquê se a direção estivesse procurando a intimidade de Kristian e ela não existisse em ações no roteiro. Falta, por essa perspectiva, uma construção imagética mais reveladora e um desprendimento do texto; uma originalidade estética para transformar menos em mais. O que acontece é justamente o contrário: a longa apresentação até o início da catástrofe é uma procura por fazer menos com mais – alguma coisa contraditório tendo porquê base o universo de A Vaga.

Titanic com Jurassic Park

É provável que, em meio a essa exploração equivocada de Andersen, personagens que aparecem muito menos durante a primeira hora de filme acabem por ter uma preço muito mais significativa para o público. Cá, vale ressaltar a expressividade da pequena Edith Haagenrud-Sande (que interpreta a Julia), que transmite o que sente quase sem necessitar dos músculos do rosto. Essa força no olhar da personagem, felizmente muito explorada pelo diretor, parece não combinar com a sensação over oferecida pelas reações de Kristian e Marit (Kathrine Thorborg Johansen), mas encontra par na mãe, Idun (Ane Dahl Torp), que transforma a dor física em uma frase carrancuda crível e condizente com a esperança de reencontrar a filha.

É verdade, também, que Terremoto garante cenas catastróficas extras com relação ao A Vaga. Enquanto o tsunami vem, destrói quase tudo e o que sobra é a tentativa de sobrevivência, o terremoto abala estruturas gigantes que podem desabar ou não à espera dos abalos posteriores de menor intensidade. Sobra espaço, logo, para Andersen, claramente prudente aos blockbusters hoolywoodianos, fazer referências pontuais (sempre espelhadas): seja a Titanic (de James Cameron, 1997) quando ao inclinar um prédio e imitar o projecto exato em que uma mulher não consegue se segurar e desliza para um término trágico, seja a O Mundo Perdido: Jurassic Park (de Steven Spielberg, também de 1997), quando Julia – ruiva porquê Sarah (Juliane Moore) – está prestes a desabar para a morte e o que a segura inicialmente é somente um vidro que vai rachando aos poucos, tudo é realizado com conhecimento de culpa.

Juliane Moore em O Mundo Perdido: Jurassic Park. (Imagem: Universal Studios) 
Edith Haagenrud-Sande em O Terremoto. (Imagem: Califórnia Filmes)

Stig van Eijk com Backstreet Boys

As causas, aliás, que são mastigadas em excesso na introdução sem ritmo do filme, são o poderoso desses momentos de ação e tensão da segunda metade. Se o início mais parece alguém fazendo uma batida de reggae lenta e sem contratempos, os desastres dão vida ao trabalho de Andersen: todos os efeitos partem exatamente de uma culpa e tudo se encaixa com fluidez. Da falta de ritmo, nasce uma elaboração norueguesa descolada e interessante, talvez sem uma identidade muito poderoso (por ser totalmente e descaradamente influenciada por Cameron, Spielberg e até Peyton). Na música, seria um pouco porquê Stig van Eijk cantando um pop tipicamente americano.

Se Terremoto é a desconstrução da humanização construída por A Vaga, ele é, também, uma tentativa válida de entretenimento mais puro. Não sei se existe alguma compatibilidade com a diversão em alguma coisa que prevê uma provável devastação da capital de um país. Pode funcionar porquê um alerta, evidente, mas fico em incerteza quanto às suas intenções. É verdade que um filme não pode ser traduzido por aquilo que tenta fazer ou ser e sim pelo que é de vestimenta. A questão, porém, é que não existe uma unidade, uma consciência estética ou estilística que refute a sensação de que tudo não passa de uma junção de fatores conflitantes. Ou seja: pode divertir, mas não diverte; pode fazer pensar, mas não faz; pode ser tenso, mas não é. Pode tudo, mas é zero