Sátira Lovecraft Country é um soco no estômago da América racista
Howard Phillips Lovecraft é um dos autores mais cultuados de todos os tempos. Nesta dez, o noticiarista de Providence, nos Estados Unidos, passou a ser mais revisitado, inclusive pelas gerações mais novas. Seu terror cósmico tem influenciado mais filmes, porquê a Cor Que Caiu do Espaço; quadrinhos, a exemplo de Black Hammer; e games (porquê os da série Souls). E com essa referência aumentando, passou do tempo de falarmos sobre um pouco que incomoda a grande maioria dos fãs: o racismo e a xenofobia zero discretos na obra e na vida de H.P. Lovecraft.
E a melhor maneira que você pode abordar esse tema atualmente é assistindo a Lovecraft Country, novidade série da HBO que adapta o livro Território Lovecraft, escrito por Matt Ruff. A atração foi criada pela jovem roteirista Misha Green, que trabalhou em Heroes e Sons of Anarchy. A produção executiva é do nerdão J. J. Abrams e de Jordan Peele, diretor de Corra! e um dos expoentes do pós-terror. O primeiro incidente foi ao ar no domingo pretérito (16).
Ok, vamos à sinopse: o ex-soldado Atticus Turner (Jonathan Majors) deixa a Flórida para retornar para sua mansão em Chicago, nos Estados Unidos segregacionistas da dez de 1950. Ele decide voltar ao receber uma epístola misteriosa de seu pai distante, Montrose, que teria ido para Ardham, Massachusetts, em procura de pistas sobre a mãe de Atticus.
Ao chegar em Chicago, Atticus reencontra a amiga de puerícia Letitia Lewis (Jurnee Smollet-Bell) e seu tio, George (Courtney B. Vance). O trio secção em uma viagem para Ardham e, ao longo do caminho, vemos uma escalada de ódio e violência em meio à vexação racial, enquanto estranhas mortes acontecem na calada da noite, envolvendo relatos de criaturas nos cantos mais escuros das florestas.
Atenção, a partir daqui há spoilers sobre o primeiro incidente de Lovecraft Country!
Cores berrantes e dezenas de referências
A primeira coisa que já labareda a atenção é a cena de buraco. Em referências que se perdem em Guerra dos Mundos, O Chamado de Cthulhu e Uma Princesa de Marte — com recta a uma versão coreana de Dejah Thoris —, temos, logo de rosto, uma exemplar impactante do que vem por aí. As cores em elevado contraste e a ambientação surreal fazem secção de um sonho de Atticus, mas, quando somos levados para a veras, essas tonalidades berrantes continuam.
É quase porquê se sonho e veras não fossem tão distantes assim. A retrato faz “homenagens” aos panfletos racistas da era e o excesso vai tornando à vexação racial da trama cada vez mais agressiva aos próprios olhos da audiência. E não faltam citações históricas para ambientar o testemunha: a construção da Moradia Branca por escravos, o Livro Verdejante do Preto Motorista (que também foi abordado no oscarizado Green Book: O Guia), o primeiro jogador preto da Major League Baseball, Jackie Robinson; a Lei Jim Crow. É até provável ver cenas que homenageiam os mesmos ângulos do trabalho do cineasta e fotógrafo Gordon Parks.
Em uma das passagens, fica evidente qual é a intenção de Misha e Peele. Ao descrever a Princesa de Marte, de Edgar Rice Burroughs — outro clássico responsável, que, a exemplo de Lovecraft, alimentava ideias xenófobas e racistas —, Atticus recebe o seguinte questionamento sobre o herói branco do livro: “Espere aí, você me disse que o herói é um soldado confederado? Ele lutou para manter a escravidão”.
Essa é a deixa para compreendermos melhor esse quase “revisionismo histórico” de Lovecraft Country. Olhe muito para trás e tente imaginar uma gaiato negra, fã de ficção científica crescendo nos anos 1950, encontrando pela frente somente os heróis brancos e heterossexuais dos livros de Lovecraft, Burroughs e mesmo dos autores que viriam nos anos seguintes — que, embora não estejam associados ao racismo, poucos fizeram questão de oferecer mais heterogeneidade e representatividade.
Ao passo que a violência e o ódio escalam em Lovecraft Country, vamos sentindo o horror que é um varão branco com uma arma na mão — e porquê a polícia representa muito mais uma ameaço do que uma proteção nesse contexto. Isso é narrado nos moldes dos próprios autores que influenciam a obra — é a forma que Misha e Peele usar o pós-terror para reescrever o gênero popularizado por Lovecraft em um novo subgênero, o “terror cósmico social”. É porquê se os produtores usassem a própria máquina que os massacrou para “consertá-la”, oferecendo uma perspectiva mais ampla do terror e da ficção científica porquê gêneros literários e porquê coadjuvantes para o cenário estadunidense.
Isso tudo vem embalado em um road movie, que faz questão de mostrar que as mazelas da idade estão presentes até hoje: há canções de era, mas em uma cena é provável ouvir Clones, da rapper Tierra Whack; e a personagem Letitia Lewis não somente reflete o que era ser mulher e negra naquele período porquê também carrega o comportamento das mulheres de hoje para enfrentar a vexação racial e… monstros.
Atuação e tom supreendente
Porquê sempre, a produção da HBO é impecável. A atuação dos atores é sólida e há muita química do trio que secção para a road trip. Os cuidados estéticos para mostrar as referências e as cores em cume contraste, com uma retrato meticulosamente planejada, tornam a ambientação em uma experiência às vezes incômoda, mormente por nos fazer refletir sobre porquê o mundo não mudou muito de lá pra cá; mas sempre hipnotizante.
E no terceiro ato do primeiro incidente vemos um plot twist que parece ter o dedo de J.J. Abrams: enquanto o terror social de Peele avança pelas mãos de Misha nos dois segmentos anteriores, no terceiro realmente vemos a rosto — e a agressividade — das criaturas que estão causando os estranhos assassinatos noturnos.
Essa viradela quase sobrenatural em uma história mais “pé no pavimento”, até logo, compõe um mix interessante e muito dissemelhante do que vimos por aí em atrações semelhantes nos últimos anos. O resultado é impressionante e muito curioso — fica difícil não querer saber o que vem por aí.
Vale a pena?
O afrofuturismo é uma fluente que tem mostrado nos últimos anos porquê a pouquidade de escritores (e personagens) negros fizeram falta à literatura de horror e ficção científica ao longo dos anos. Lovecraft Country se encaixa nesse movimento e vem para criticar e preencher lacunas, com um “terror cósmico social” em forma de “road movie” na série da HBO.
É para quem gosta da obra de Lovecraft e para quem gosta de mistério e ficção científica. É para os amantes de boa narrativa e ótimos personagens. E a discussão sobre o racismo, machismo e vexação social presentes na série são tão importantes e atuais que não deixam de tornar a atração da HBO ainda mais relevante para o momento em que vivemos: o de reconstrução de nossa própria história.
*Nascente texto não reflete, necessariamente, a opinião do .
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