Covid-19: A VISÃO foi ao laboratório onde se fazem os testes portugueses que não precisam de zaragatoa
“A biologia molecular não é muito dissemelhante da culinária”, graceja a bioquímica Catarina Pimentel, responsável pela equipa de cientistas do Instituto de Tecnologia Química e Biológica (ITQB), da Universidade Novidade de Lisboa, que desenvolveu um teste de rastreio da Covid-19 capaz de identificar o vírus SARS-CoV-2 em amostras de seiva, sem ser necessária a sua recolha com uma zaragatoa.
Basta esputar “a primeira seiva da manhã” para dentro de um recipiente esterilizado, porquê aqueles que são utilizados noutras análises clínicas, alguma coisa que as pessoas podem fazer sozinhas, sem a mediação de um profissional de saúde. “A seiva deve ser recolhida antes de consumir ou de lavar os dentes”, explica a bióloga Mónica Serrano, que também esteve envolvida no desenvolvimento deste teste molecular.
Foram necessários seis meses de investigação para encontrar a “receita” certa, que permite saber se alguém está infetado com o SARS-CoV-2 em trinta minutos ou, no sumo, uma hora. A rapidez do resultado e a facilidade da colheita tornam estes testes mormente adequados para o despiste da Covid-19 em escolas, lares ou aeroportos. E também poderão estar facilmente acessíveis à população em clínicas ou farmácias, a grave dispêndio.
A formosura desta técnica é a sua simplicidade. Ela pode ser aplicada em locais com poucos recursos laboratoriais, porquê clínicas ou farmácias
catarina pimentel, investigadora do itqb novidade
As cores vibrantes não deixam margem para dúvidas. Se a seiva permanecer cor-de-rosa, o resultado é negativo para a presença do SARS-CoV-2. Se permanecer amarela, o resultado é positivo. Esta deteção colorimétrica (através da cor) é visível a olho nu. Um dos segredos da “receita” foi, precisamente, encontrar a fórmula ideal, que permite visualizar o diagnóstico com nitidez.
“A formosura desta técnica é a sua simplicidade”, defende Catarina Pimentel. “Ela pode ser aplicada em locais com poucos recursos laboratoriais, porquê clínicas ou farmácias”.
Ir ao forno
O teste implementado pelo ITQB NOVA utiliza a tecnologia LAMP (loop-mediated isothermal amplification, na sigla inglesa), um método de amplificação isotérmica (através da temperatura) do material genético do vírus. Neste caso, é necessário manter a exemplar a uma temperatura metódico de 65 graus centígrados, durante meia hora, para replicar os fragmentos do vírus, tornando mais fácil a sua deteção. Levante processo de aquecimento poderia ser realizado com um simples banho-maria, tal porquê é habitual os chefes de cozinha fazerem.
No laboratório, a exemplar é colocada num termociclador (uma espécie de forno, generalidade nos centros de investigação mais básicos). A seiva está misturada com as enzimas que permitem identificar o material genético do vírus, caso ele esteja presente, e com a substância colorimétrica, que muda de cor devido à modificação do pH provocada pela reação química.
Esta técnica já existe há mais de duas décadas mas, em junho, à semelhança de outros investigadores espalhados pelo mundo, os cientistas do ITQB NOVA decidiram aplicá-la à deteção do SARS-CoV-2 e “desenvolver uma ‘receita’ LAMP inteiramente portuguesa”, ilustra a investigadora. Outras “receitas” já estão a ser implementadas no terreno com sucesso. No Reino Unificado, por exemplo, existem testes LAMP disponíveis em vários aeroportos para quem quiser fazer o rastreio à Covid-19 antes de viajar.
O processo de aquecimento da exemplar poderia ser feito com um simples banho-maria, tal porquê é habitual os chefes de cozinha fazerem.
Inicialmente, o teste português começou por ser validado através de amostras cedidas pelo Laboratório de Bromatologia e Resguardo Biológica do Tropa e também pelo Hospital das Forças Armadas, que eram simultaneamente analisadas através de testes PCR (que implicam a extração de material genético do vírus e que, por isso, são mais morosos) e dos testes LAMP desenvolvidos pelo ITQB NOVA. No caso dos PCR, as amostras tinham sido recolhidas do nariz e da gasganete com uma zaragatoa, enquanto nos LAMP exclusivamente foi utilizada a seiva. O objetivo era determinar se os resultados coincidiam e, pelo caminho, ir aperfeiçoando a “receita”.
Os resultados promissores conduziram à realização de um rastreio piloto em voluntários da comunidade do ITQB NOVA, na semana passada. As 179 amostras de seiva analisadas tiveram resultado negativo para a presença do SARS-CoV-2, mas contribuíram para que fosse oferecido mais um passo na validação da investigação.
Eficiência vs. Rapidez
Mas, a aprovação dos testes LAMP não é sinónimo do término do desconforto da colheita com zaragatoa. “Estes testes não são tão eficazes porquê os de PCR”, sublinha Catarina Pimentel, mas têm outras vantagens. “São uma forma de descentralizar o diagnóstico, levando-o a sítios onde o PCR não chega, porque exige instrumentos mais complexos”, acredita a investigadora de 47 anos.
A bioquímica defende que levante teste rápido pode ser mormente útil na deteção dos infetados assintomáticos: “É uma forma de os testar sem pôr em motivo os recursos que são necessários para os doentes sintomáticos e para o rastreio de contactos”.
De conformidade com o primeiro Interrogatório Serológico Pátrio, orientado pelo Instituto Pátrio de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), a percentagem de assintomáticos com Covid-19 em Portugal ronda os 44%.
“Existem relatos na literatura científica de que a fardo viral dos assintomáticos é semelhante à dos doentes com sintomas. Ou por outra, a fardo viral vai aumentando nos sintomáticos até atingir um pico que coincide com o início dos sintomas. Tudo isto torna ainda mais pertinente detetar os assintomáticos e os pré-sintomáticos precocemente para controlar a pandemia”, nota Catarina Pimentel.
Se o objetivo for diagnosticar a infeção, o teste deve ser o mais sensível provável mas, se pretendermos estimar até que ponto uma pessoa pode contaminar outra, podemos utilizar um teste rápido
catarina pimentel, investigadora do itqb novidade
Porém, reforça, “o PCR é o teste de diagnóstico por primazia”. Os testes rápidos de antigénio, tal porquê os testes LAMP, não têm uma sensibilidade tão grande para cargas virais muito baixas. O teste português, até agora, mostrou ter uma sensibilidade de 85%, quando comparado com os de PCR que, apesar de terem uma maior sensibilidade, também não são 100% fiáveis.
“Se o objetivo for diagnosticar a infeção, o teste deve ser o mais sensível provável mas, se pretendermos calcular até que ponto uma pessoa pode contaminar outra, podemos utilizar um teste rápido”, defende a investigadora do ITQB NOVA. Mesmo não sendo tão sensíveis quanto os de PCR a detetar cargas virais muito baixas, “são muito eficazes nas cargas virais médias ou altas, as mais importantes na norma da infecciosidade de alguém”, afirma.
Catarina Pimental invoca o exemplo da Eslováquia, o país europeu que, no início de novembro, testou murado de dois terços da sua população de 5,5 milhões de pessoas com testes rápidos de antigénio. Nessa mega-operação, que custou 300 milhões de euros, identificaram mais de 50 milénio doentes infetados. E, numa semana, conseguiram reduzir o número de casos de Covid-19 em 60%. “Foi um grande sucesso”, classifica. Entretanto, porquê não repetiram a testagem em tamanho, o número de infeções voltou a subir e o país viu-se obrigado a impor novas medidas de confinamento.
Solução económica
Além de uma equipa de murado de uma dezena de cientistas do ITQB NOVA, a investigação também contou com a colaboração do Laboratório de Bromatologia e Resguardo Biológica (Unidade Militar Laboratorial de Resguardo Biológica e Química) e do Hospital das Forças Armadas.
Catarina Pimentel descreve o teste porquê sendo “completamente português”. E lembra uma prelecção aprendida durante a primeira vaga da pandemia: “Começaram a faltar reagentes para realizar o diagnóstico laboratorial, o que nos ensinou que não podemos estar dependentes de um único tipo de teste ou de poucos distribuidores, para garantirmos a nossa autonomia”. A bioquímica sublinha, por isso, a relevância de o ITQB NOVA estar prestes para produzir todas as enzimas necessárias à realização do teste – sobretudo sendo leste o componente mais dispendioso do processo.
No entanto, quando comparada com outras técnicas, esta é uma forma económica de prometer o rastreio de populações que, à partida, estariam fora do projecto solene de testagem. Os custos de produção dos testes LAMP chegam a ser dez a vinte vezes inferiores aos dos PCR, que rondam os €30 ou €50. Pelo preço de um único teste PCR, é provável testar uma turma inteira com a tecnologia LAMP.
Os custos de produção dos testes LAMP chegam a ser dez a vinte vezes inferiores aos dos PCR, que rondam os €30 ou €50.
No caso dos assintomáticos ou dos pré-assintomáticos, por exemplo, “o insignificante dispêndio dos LAMP compensa a sua menor sensibilidade”, comparativamente com os PCR. Enfim, de outra forma, essa franja da população dificilmente seria testada. “É dispendioso repetir um teste PCR com regularidade, sem motivo aparente, mas levante pode ser feito mais vezes, aumentando a verosimilhança de detetar a infeção quando a fardo viral ainda é baixa”, vaticina Catarina Pimentel. Além da rapidez do resultado, também o inferior dispêndio é uma vantagem da utilização deste tipo de testes para controlar surtos em empresas, lares ou escolas.
Apesar de não poder desvendar pormenores, a investigadora revela que, ao mesmo tempo que criaram o teste, também desenvolveram um novo método de deteção colorimétrica, que não estará dependente do pH da exemplar, o que poderá expulsar a dificuldade de trabalhar com salivas mais acídicas. O projeto ainda está envolvido em secretismo porque poderá valer uma patente científica.
O próximo passo será a publicação dos resultados da investigação numa revista científica. A validação do teste irá continuar com a estudo de mais amostras, até ser submetido a aprovação por secção das entidades responsáveis pela regulação dos produtos farmacêuticos, porquê o Infarmed. O objetivo é que venha a estar disponível para o grande público em clínicas ou em farmácias, onde poderá vir a ser provável entregar a seiva recolhida em moradia para a realização do teste.
A investigação nasceu do duelo lançado aos cientistas do ITQB NOVA pelo diretor da instituição, Cláudio M. Soares, que os incentivou a apresentarem propostas relacionadas com os problemas colocados pela pandemia. E também conta com 35 milénio euros de financiamento atribuídos através do concurso Research4Covid-19, lançado pela Instalação para a Ciência e a Tecnologia.
Apesar de não trabalhar na dimensão de diagnóstico, Catarina Pimentel confessa que a motivação para o projeto foi crescendo durante o isolamento provocado pela pandemia. “Creio que todos os cientistas tinham vontade de fazer alguma coisa.” E, alguns, fizeram mesmo.