Comodidade dez, privacidade zero
Illustration Works/Corbis
Evidente que você já percebeu. Sua vida não é mais a sua vida. Ela pertence aos aplicativos e à internet. Você entra no carruagem, liga o Waze para ver o trânsito e, dependendo do horário, o aplicativo já te pergunta se você está indo para determinado lugar – porque já reconhece seus trajetos usuais. Você entra no site da Amazon para comprar um livro e o site, com base em suas pesquisas e compras anteriores, já te mostra sugestões afins. Você escolhe pelo Airbnb uma lar para passar as férias, envia uma solicitação de suplente para o proprietário e se, 24 horas depois, não obtiver resposta, o site sabe e já te envia um pedido de desculpas e opções de casas semelhantes.
Isso é fantástico e ao mesmo tempo terrificante. Os sites e aplicativos estão cada vez mais inteligentes e… sabem TODOS os nossos movimentos. Muita gente sequer percebe. Ou, se percebe, se sujeita a fornecer dados para ter em troca a economia de tempo e a comodidade.
Evidente que todos nós gostamos de ser reconhecidos, de ter tratamento personalizado. Os sofisticados algoritmos por trás dos sites e aplicativos são mestres em suprir a nossa carência por atenção. É porquê se um camarada que nos conhece muito nos desse dicas sobre coisas que ele sabe que gostamos. É uma sensação de intimidade, de dedicação, que de alguma forma nos faz sentir mimados e privilegiados.
Colhemos as facilidades de receber informações alinhadas às nossas demandas e ao nosso perfil, mas pagamos o preço da não-privacidade.
Talvez por isso a febre do momento seja o Snapchat, aplicativo para troca de mensagens que apaga os registros em somente alguns segundos. Para os teens, que há muito abandonaram o Facebook porque não querem saber de pais e tios “espionando” suas agens, é a mídia ideal.
As marcas e artistas já estão descobrindo o valor desse “contato repentino”. Em fevereiro, Madonna lançou com exclusividade no Snapchat o clipe de Living for Love. Usando a instrumento Discover, a cantora distribuiu o vídeo para todos os usuários do aplicativo, mas ele desapareceu em menos de 24 horas. Depois ele foi ado no YouTube, mas o estrondo inicial se deu pelo Snapchat.
Enquanto os mais velhos querem vigiar diálogos do Whatsapp ou revisitar antigos álbuns de fotos no Facebook, os mais jovens querem fugir desses registros. Tudo é repentino, de consumo rápido e superficial. No dia seguinte, mal se lembram do que viram. As impressões são fugidias e estão a todo momento dando lugar ao novo. Ansiamos por novidade, sem parar.
Se em 1989, quando Richard Saul Wurman (o idealizador das fantásticas mini-apresentações TED Talks) escreveu “Impaciência de Informação”, já havia essa angústia, imagine hoje, com a facilidade das redes sociais para disseminar texto em texto, vídeo e áudio. Em tempo: há um volume II dessa mesma obra, escrito em 2006, que discute porquê tornar a informação mais fácil e entender e de usar.
Chegará um tempo em que não vamos mais dormir, para não deixar de consumir texto online o sumo provável. “O dia de 24 horas, definitivamente, não é mais suficiente. Não dá mais tempo para dormir, estamos o tempo todo conectados, atentos, consumindo texto e nos relacionando com pessoas, sejam elas conhecidas ou não. No mundo atual, dormir é para os fracos. Dormir é o único momento em que realmente não estamos conectados. Talvez cheguemos a uma sociedade em que dormir seja ruim, indo além da mera sensação de perda de tempo que alguns de nós já sentem”, escreve Mauro Segura no intrigante No mundo atual, dormir é para os fracos, inspirado pela obra “24/7 Capitalismo Tardio e os Fins do Sono”, de Jonathan Crary. É a Síndrome de FoMO (Fear of Missing Out, ou pavor de deixar passar alguma coisa) elevada à décima potência.
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Com informações de (Manadeira):Mídias Sociais