Collective Intelligence não é Inteligência Coletiva
O título deste artigo possui uma estranheza proposital. A tradução para o português de Collective Intelligence é Inteligência Coletiva. Entretanto, apesar similaridade dos termos entre os dois idiomas, o conceito no Brasil tem enveredado por caminho, digamos, não tão inteligente.
Percebo que, nós brasileiros, adotamos conceitos e procedimentos oriundos de outras terras e tropicalizamos. Isso é muito comum. Somos assim mesmo, suprimimos o que não nos interessa e aplicamos o que achamos que é melhor para o resultado que pretendemos. Isso não é uma crítica, é uma observação cultural.
No caso de Collective Intelligence não foi diferente. Devido diversos fatores culturais, ideológicos e até de não-compreensão das possibilidades tecnológicas da Web, a concepção original sobre Collective Intelligence se perdeu e virou outra coisa no Brasil.
Vejamos o verbete Inteligência Coletiva, em português, na Wikipedia. Lá está escrito, “são também características da inteligência coletiva o uso da interatividade, das comunidades virtuais, dos fóruns, dos weblogs e wikis para construir e disseminar os saberes globais, baseados no acesso à informação democratizada e sua constante atualização”.
A descrição coloca a Inteligência Coletiva na Web no campo da ação humana, das intencionalidades. Ela funciona dessa maneira? Sim, funciona, mas para pouquíssimos casos. Vejamos o próprio exemplo do Wikipedia, que é um sistema voltado para construção coletiva de verbetes e funciona muito bem e com grande sucesso social. O uso da ferramenta wiki para outras finalidades, como a construção de notícias de forma coletiva, por exemplo, é #fail.
Homosapiens e a Inteligência Coletiva
A Collective Intelligence parte do princípio antropológico que ela existe desde os primórdios do homosapiens. “Viver em tribos, ser coletivo na caça, formar nações e as modernas corporações são atos coletivos com variação de graus de inteligência”, afirmam os pesquisadores do MIT Center for Collective Intelligence. Mas como emular a Inteligência Coletiva que acontece nas relações humanas mediada pelo mundo natural para um sistema sintético mediado por redes computacionais, apesar de ser produzido e acionado por humanos?
O pessoal da Computational Collective Intelligence entende que é uma forma de inteligência que emerge da colaboração e competição entre muitos indivíduos (no mundo natural ou artificial), mas que no mundo artificial só é possível com a aplicação de múltiplas tecnologias de inteligência computacional, tais como sistemas Fuzzy, computação evolutiva, redes neurais, entre outras.
Entretanto, entendo o por que do termo Inteligência Coletiva na Web assumir outra interpretação no Brasil. Com o advento das tecnologias digitais conectadas, a Web é de longe a mais popular delas, e o seu barateamento (computadores e conexões), além do surgimento de dispositivos móveis, fazem com que uma massa de usuários possam se apropriar delas de modo amigável, sem necessitar de conhecimentos profundos de tecnologia.
Esta convergência de condições proporciona possibilidades infindáveis de conexões e, portanto, conversações, informações e dados são inseridos na rede numa quantidade e velocidade jamais imaginadas. O volume descomunal dos ativos digitais armazenados fornece a dimensão que tudo que é inteligente pode surgir “naturalmente” na rede.
Será?
Mundo de possibilidades…
Mas, convenhamos, são dois termos que juntos formam um belo campo semântico. O conceito de Inteligência é, desde os primórdios da humanidade, elegante, bonito e, principalmente, confere um ar de diferente para melhor, ou seja, algo melhor do que a média. Inteligência envolve habilidade para raciocínio, planejamento, resolução de problemas, pensamento de forma abstrata, compreensão de ideias complexas, aprendizagem rápida e através da experiência. Já o Coletivo, insere o pensamento de ajuda, ou seja, compartilhar, cooperar, colaborar, sempre visando um bem comum, para garantia da sobrevivência.
A partir disso, quando utilizado, o termo Inteligência Coletiva gera mentalmente um mundo de possibilidades positivas, advindas de contribuições coletivas que geram soluções inteligentes. Quem não gosta disso? Muitos! Entretanto, realmente isto acontece na Web? Sim, acontece se suportada por sistemas complexos projetados para essa finalidade.
Fonte:Tecnologia & Comunicação