Brasil precisa discutir incentivos à instalação de data centers

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Por conta do Marco Civil da Internet, muito se discutiu nos últimos meses sobre soberania de dados e a questão de obrigatoriedade de guarda de dados dos brasileiros em data centers no Brasil.

É consenso entre os profissionais de TI e consultorias, como o Gartner, que essa obrigatoriedade é uma bobagem, diante da natureza dos serviços digitais de hoje e do uso crescente de data centres inteligentes, com recursos distribuídos. As empresas já processam os dados globalmente, onde a energia é mais barata…

Além disso, setores mais regulados, como financeiro, que requerem a guarda local de dados com maior segurança, já o fazem.

O problema é que a discussão da obrigatoriedade de armazenamento local de dados mascarou uma outra muito importante, que á a necessidade dos investimentos em data centers locais para o crescimento do país.

Diante dos cenários das cidades inteligentes e da Internet das coisas, onde teremos cada vez mais sensores espalhados por aí, no ambiente e nos objetos (relógios, geladeiras, TVs, carros) gerando milhões de dados que serão processados e analisados pelos governos e pelas empresas em tempo real, o Brasil precisará ter mais data centers, estrategicamente localizados, para garantir principalmente rapidez no processamento, com baixa latência, resposta imediata, e isso implica ter o dado o mais próximo possível mesmo. Portanto, o armazenamento local vai acabar, em muitos casos, sendo uma exigência técnica.

Em cinco ano vamos precisar processar um volume de dados 800 por cento maior do que hoje, segundo o Gartner, que faz hoje e amanhã, em São Paulo, uma conferência sobre infraestrutura de TI.

Só a Internet da Coisas deve gerar sozinha o dobro dos dados gerados pelos celulares, tablets e computadores juntos. Estima-se que IoT incluirá 26 bilhões de unidades instaladas, até 2020, e os fornecedores de produtos e serviços vão gerar receitas adicionais superiores a US$ 300 bilhões – a maioria, em serviços.

A área de infraestrutura, operações e data center é, portanto, uma área muito crítica para a economia digital, que precisa estar sempre preparada para atender às demandas de negócio. Os data centers são considerados o coração dessa infraestrutura. O desafio é garantir maior agilidade aos negócios.

E o Brasil já é carente de data centers. Há uma concentração muito grande na região sudeste, principalmente nos Estados do Rio e São Paulo). Se não discutirmos seriamente incentivos para a implantação de mais data centres, principalmente em outras regiões, teremos nossa competitividade comprometida.

De acordo com o Henrique Cecci, diretor de pesquisa do Gartner e coordenador da conferência, os brasileiros chegam a pagar até 4x mais pelos mesmos serviços de nuvem. Se tivéssemos mais serviços sendo oferecidos no país, a um custo mais baixo, as empresas brasileiras seriam mais competitivas. Mesmo diante do custo Brasil.

“O Brasil já é um hub importante para algumas empresas, como Microsoft e Amazon, para a América Latina. Latência de rede foi um fator importante para prestação do melhor serviço de cloud para os clientes. E o Brasil representa hoje mais de 50% do...

PIB de cloud da região. Portanto, é um candidato natural à investimentos em data centers. Às vezes essa escolha é mais difícil. Aqui você paga mais caro energia, mão-de-obra, telecomunicações, mas tem ganhos em qualidade de serviços, impostos para pagamentos locais, outras vantagens que compensam em termos de custo”, diz Cecci. Segundo ele, a otimização de custos e o ganho de performance têm um peso muito importante na escolha.

Na opinião do analista do Gartner, antes de obrigar a guarda de dados no país, o governo brasileiro deveria discutir, à luz do desenvolvimento econômico nos próximos anos, quantos data centres vamos necessitar para garantir o crescimento do Brasil e onde.

E a partir dessa discussão, que segundo o Henrique deveria ser capitaneada pelo Ministério do Planejamento, pelo caráter estratégico para o país, definir instrumentos de incentivo como melhoria das infraestruturas de telecom, energia e fornecimento de água, além da desoneração fiscal para aquisição de equipamentos.

Algo como o Ministério das Comunicações já vem fazendo com equipamentos para infraestrutura de telecomunicações. Que até inclui data centres, mas para operadoras de serviços de telecomunicações.

Entre os equipamentos que os data centers precisam são diferentes daquelas usados na construção de redes. São servidores, hardware para armazenamentos, e principalmente geradores de energia, muitas vezes importados.

Atualmente, há uma grande oportunidade para o país atrair investimentos na implantação de data centers mais modernos, com tecnologias que enderecem melhor a questão do volume de energia e refrigeração necessários.

Não podemos esquecer que energia é hoje um dos fatores que tem travado o crescimento de muitos data centers no Brasil. É importante inclusive para resfriar o ambiente do data center.

Temperatura é sempre apontada como um problema para a instalação de data centres na região nordeste, por exemplo. Mas lá, o problema de fornecimento de energia podia ser resolvido com investimentos em energia e eólica e energia solar.

Como se vê, são muitas as questões de fundo econômico e de infraestrutura a serem trabalhadas, com políticas coordenadas em diversos ministérios, para que o Brasil se torne um país mais atraente para investimentos nessa área.

Eu diria que um debate mais amplo sobre iniciativas que estimulem a instalação de mais data centers no Brasil – não só de provedores de conexão e aplicações de internet, como quer o ministro das Comunicações Paulo Bernardo – já está atrasado.

Mais que bem-vindo, esse debate é extremamente necessário em um mundo que caminha para a descentralização dos data centers.

De acordo com o Gartner, possuir muitos data centers na mesma localidade inibe a habilidade das empresas de responder rapidamente às mudanças de negócio. Há uma grande pressão para a adoção de uma topologia mais sustentável. E isso pode significar a adoção de uma estratégia de instalação de não mais que dois data centers por continente.

Na América do Sul, gigantes da internet, como o Google, preferiam investir no Chile, inicialmente, para ter uma presença local. Mas, segundo o Gartner, o Brasil deve estar sendo analisado como possibilidade para um segundo data center.

É hora de agir, de forma inteligente, sem usar a soberania de dados como desculpa. Essa é uma outra questão.

Fonte:Circuito De Luca