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Cancelamentos voltaram ao debate em meio ao BBB 21

Cancelamentos voltaram ao debate em meio ao BBB 21

Por conta do Big Brother, cancelamentos voltaram ao debate. Mas, porquê tudo no envolvente de polarização, não conversamos o suficiente sobre eles. Sobre porquê a dinâmica de redes sociais e algoritmos os tornam mais agressivos e, por vezes, inevitáveis. Vai além: porquê focamos demais naqueles cancelamentos promovidos por militantes identitários, com frequência não percebemos que seu impacto é mais espaçoso e tem um dispêndio muito supino para o debate público. Em todas as correntes políticas, as conversas estão travadas.

É só prestar atenção: quando é que, no meio de uma conversa, somos surpreendidos por um argumento novo? É cada vez mais vasqueiro. As identidades ideológicas se cristalizaram. Desta forma, se uma deputada ligada à esquerda considera necessária uma reforma da Previdência, ela é imediatamente atacada pelos seus próprios. Se uma militante trans se declara liberal é também atacada pelos seus. Porquê o conservador favorável a ensino sexual na escola pública é de presto lapidado nas redes. São, todos, exemplos reais.

A cristalização das identidades transforma o debate político num pacote fechado. Quem carrega uma determinada etiqueta ideológica deve, quando conversando sobre política nas redes, repetir todas as opiniões pré-formatadas sob o risco de cancelamento. Mudar de opinião é, também, um risco.

O fenômeno não é originário — é construído. Faz secção da transformação de política em tribalismo e tem duas origens. Começa nos algoritmos — o software que decide aquilo que aparecerá para nós no Twitter, no Face, no YouTube. Porquê o objetivo desta lucidez sintético é que fiquemos a maior quantidade de tempo na plataforma, ela mostra aquilo que, acredita, vai nos deixar ligados. Sempre acerta.

Na sequência há nossa interação...

com o software. Porquê buscamos likes, porquê buscamos atenção, aprendemos que tipo de mensagem devemos ortografar para levantar a vaga.

O resultado final é pasteurização. E à pasteurização dos argumentos no debate público se segue a intolerância com qualquer meandro. Daí a sentinela ideológica.

Mas esta não é aquela ronda ideológica dos anos 1970 — é novidade. Funciona porquê pegar uma vaga no mar. Vemos uma, duas, três pessoas atacando uma quarta. Os argumentos para o ataque — sempre os mesmos. E, evidente, o delito costuma ser de meandro ideológico. É ver que a vaga está crescendo. No quinto ataque, fica óbvio que basta se juntar àquelas vozes e muita gente lerá seu tuíte, dará um like. É pegar a vaga.

Com frequência, muitos argumentam que são só ‘críticas’. É um ‘debate’ ocorrendo. Não é. Há uma moeda fluente nas redes sociais que é a do like, dos curtires diversos, o polegar para cima, o coração clicado. Ícones positivos, muitas vezes, para simbolizar a aprovação a uma torrente que expressa emocionalmente raiva ou ódio. Aquela curtida vale muito psicologicamente, assim porquê a pedra lançada na forma de tuíte — ou vídeo, ou post — sinaliza outra coisa muito importante. Sinaliza, para quem é do grupo, que quem apedrejou subscreve os argumentos congelados e imutáveis. Sinaliza virtude.

Não é debate por um motivo muito simples. Quem é cancelado não vê argumentos. Vê, isto sim, num longo escorregar do dedo contra a tela uma lista infindável de ataques. Não dá pra ler. E não há chance de uma resposta aprazer. Ou ajoelha no milho ou se cala e espera passar. Não houve um invitação à reflexão, não há a possibilidade de diálogo.

Acontece todos os dias. Cancelamentos são uma febre, um dos muitos sinais de que o debate público quebrou. Estamos nos transformando numa sociedade movida pela pulsão de morte e incapaz de se fascinar com novas ideias.





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