Uma das primeiras atividades que me fascinou no mundo das máquinas computacionais foi a possibilidade de atuar nelas. Ou seja, pensar e modelar algo e ver como pode ser executado por uma máquina. No início dos anos 80, com uma calculadora HP 11 C, percebi essa chance ao programar o jogo Batalha Naval. Foi uma sensação incrível assistir, pela primeira vez, um programa rodar e funcionar. Desde então, que compreendi que poderia atuar sobre um aparato tecnológico e fazer com que ele executasse aquilo que desejava.
De lá para cá, as tecnologias de informação avançaram num ritmo jamais imaginado, a ponto de alguns cientistas sugerirem que as máquinas adquirirão consciência um dia. Outros dizem que isso é uma falácia. Essa discussão já ganhou vários ramos do conhecimento humano, inclusive a Filosofia que agora faz pontes com a Neurociência e Ciência da Computação.
Mas nesse momento, é visível que os sistemas estão realizando tarefas só imaginadas pelos autores de ficção científica num passado não muito distante. Um rápido exemplo é a área da medicina. Nela, a luta pela vida tem um forte aliado: os sistemas computacionais.
Mas a facilidade de acesso e manipulação de sistemas computacionais está sendo trocada por outra forma de utilização que fornece a percepção que o usuário está “mandando no pedaço”. Com o avanço do Capitalismo nos ambientes estruturados pelas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), tendo início nos anos 80 do século passado, as tecnologias proprietárias (que você paga para utilizar) encontraram um filão importante na para conseguir a massificação: ser amigável ao usuário.
O Facebook, que começou como uma rede social conectada dentro de uma universidade americana, portanto com uma arquitetura de acesso compreensível pelos nerds de Harvard, mudou e evoluiu.
Nesse cenário, que parece ideal, as tecnologias se tornam amigáveis (de fácil uso), com “precinhos” interessantes e as empresas que fornecem os softwares estão felizes e bilionárias.
Outra estratégia muito bem sucedida, do ponto de vista do modelo de negócio, é o caminho trilhado pela Microsoft e Apple, as duas mais importantes empresas de softwares para grande consumo, que mostraram ao mercado a fórmula do sucesso: aprisionamento de conteúdos e de sistemas.
Fazemos o que podemos dentro de uma determinada lógica
As Tecnologias de Informação e Comunicação potencializam as nossas habilidades, fazem as tarefas que tocamos no dia-a-dia serem cumpridas com mais rapidez, facilitando ampla forma de documentação, que pode ser utilizada para decisões...
futuras. Assim, não precisamos gastar ao nosso complexo de memória biológica com tudo que devemos lembrar.
Nessa lógica, se comprarmos os principais programas e utilizarmos as tecnologias conectadas através de redes mais utilizadas, garantimos que estamos caminhando com eficiência e eficácia, como o mercado e os nossos chefes e/ou acionistas desejam.
Acredito que os medidores baseados nessas lógicas são idealizados para aferir os efeitos dessas lógicas, portanto, mostram que os resultados são bastante satisfatórios quando as TICs são utilizadas conforme “todo mundo usa”.
Entretanto, leio e escuto diversas queixas por falta de criatividade e ousadia no campo do uso das TICs. “O mais do mesmo” dominou o mercado e o que se vê é sempre uma tentativa de se fazer o mesmo, mas com modificações que façam se parecer com outra coisa. Mas, se olhar com atenção a organização dos elementos e as suas relações, perceberá que já viu aquilo em algum lugar.
Se por um lado os resultados são aceitos dentro dessa lógica, há uma percepção, acredito, coletiva que algo de diferente pode e deve ser realizado. Mas como?
Modelo broadcasting nos aplicativos
Entendo que o profissional que utiliza as Tecnologias de Informação e Comunicação deve ter a capacidade de atender os desejos do contratante/chefe no que tange aos resultados esperados. Contudo, o desenvolvimento de novas habilidades e criatividade para romper e criar novos horizontes está, no campo das TICs, na capacidade de conhecer o leque de tecnologias que podemos atuar e nos apropriar de forma profissional delas.
Atualmente, utilizamos e acessamos um mundo tecnológico de forma pasteurizada. Os mesmos softwares e as mesmas redes etc. Entendo, todos são cobrados por resultados e se os resultados forem na média do que acontece no mercado, ufa, tudo bem.
Soma-se a esse círculo vicioso, o advento dos aplicativos. Nesse novo universo tecnológico, o usuário se sente poderoso ao poder pagar um sistema que lhe fornece as mesmas informações para todos. É o estabelecimento de uma estrutura de transmissão de informação como se utilizássemos modelo broadcasting (TV, Jornal e Rádio): de um para muitos.
Os “antenados” acreditam estar no “cutting edge”, utilizando a tecnologia dos aplicativos, que são hoje a ponta de lança do modelo de negócio que permite aprisionamento de tecnologia e conteúdo.
Escrever contra essa maré é bem difícil, pois o mercado diz que são imprescindíveis. Porém, o usuário não consegue atuar nesses dispositivos para adaptar as suas tarefas de modo criativo e ousado, na tentativa de produzir algo diferente do “Mais do mesmo”.
Fonte:Tecnologia & Comunicação